O Dia Internacional do Guia-Intérprete e a AGIC, no Diário de Notícias

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Jantar-convívio do Dia Internacional do Guia-Intérprete (21Fev06)

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A AGIC promoveu um jantar-convívio para celebrar o Dia Internacional do Guia-Intérprete. Este teve lugar no Restaurante Alfândega, em Lisboa, e contou com a presença dum razoável número de colegas.

Durante o evento, foi prestada uma homenagem a W. A. Mozart, expoente da cultura universal nascido há 250 anos. A soprano Alexandra Filipe e a pianista Viviena Toupikova brindaram os presentes com duas árias da ópera "Le Nozze di Figaro", excelentemente interpretadas e que mereceram caloroso aplauso.

Mozart foi, também, evocado como fonte de inspiração e estímulo para o nosso trabalho, como criativo, como homem de Cultura e divulgador de Cultura, como viajante, como poliglota, como espírito cosmopolita e universal e transmitindo o seu Conhecimento, a sua Arte numa linguagem acessível à compreensão dos outros.

Este jantar serviu, finalmente, para reencontrar colegas, num ambiente de descontracção e para fazermos um ponto da situação dos Guias-Intérpretes face à Directiva Bolkestein, recentemente aprovada no Parlamento Europeu.

Agradecemos a simpatia da Ana Malta (R. Alfândega) e a magia da Alexandra e da Viviena.

 

A AGIC na BTL 2006

Em muitos anos de existência legal das profissões de Guia-Intérprete e Correio de Turismo, foi esta a primeira vez que uma organização sua representante participou, com stand próprio, numa Feira de Turismo, em Portugal. Coube à AGIC o papel de pioneira, e só podemos estar orgulhosos de tal, pois esta participação na BTL 2006 traduziu-se num êxito assinlável.
Desde logo, a afluência de Guias-Intérpretes e Correios de Turismo foi em número considerável, não raro em simultâneo, o que proporcionou uma excelente oportunidade de convívio. Depois, porque a maioria dos até então não-sócios concretizou a sua adesão à nossa Associação. E, só por isso, já teria valido a pena.
Mas esta presença na BTL possibilitou, ainda, contactos entre a AGIC e várias organizações públicas e privadas do sector, incluíndo operadores turísticos e organismos seus representantes, o que irá, certamente, produzir os seus frutos.
Com tudo isto, a AGIC cimentou a sua importância no sector do Turismo e a sua credibilidade como interlocutor representante dos interesses e direitos dos Guias-Intérpretes e Correios de Turismo.

Fotos BTL 2006

 

FUNDAÇÃO DA AGIC


Em 13 de Maio de 2004, teve lugar, no 8º Cartório Notarial de Lisboa, a escritura de constituição da AGIC – Associação Portuguesa dos Guias-Intérpretes e Correios de Turismo. Dá-se, assim, corpo a uma ambição destas classes profissionais no sentido da sua dignificação e recuperação do prestígio, e que passará, também, por um enquadramento legal que garanta o seu futuro e o reconhecimento da sua importância no Turismo.

O Congresso Nacional de Guias-Intérpretes e Correios de Turismo, que se realizou no Hotel Holiday Inn Lisbon, no passado dia 31 de Janeiro de 2004, permanecerá como um marco na já longa história destas profissões, ao ter caucionado esta fundação. O projecto então proposto teve uma receptividade entusiástica, traduzida não só nos apoios e elogios manifestados durante o evento, como também na grande adesão expressa na imediata inscrição (com o pagamento da respectiva jóia) de mais de 80 participantes, não tendo muitos deles sequer esperado pelo fim dos trabalhos!

 

CONGRESSO NACIONAL DE GUIAS-INTÉRPRETES E CORREIOS DE TURISMO

Lisboa, 31Jan04

Excerto da intervenção "Situação Profissional", feita pela colega Isabel Barreiro, durante o Congresso:

(...) Temos uma profissão legislada desde 1979/80, reconhecida e regulamentada por várias directivas comunitárias, pelo menos desde 1999.
(...) O exercício profissional enfrenta hoje exigências maiores e mais variadas, com graus de eficiência de desempenho muito mais elevados, em campos tão multifacetados como a ecologia, o desporto, e economia, a sociologia, etc., aliados, claro, a todos os temas clássicos que vão da História e da arte à enologia...
(...) Apesar de tudo, temos tentado sempre conseguir que o cliente final tenha o grau de satisfação que merece.
Mas também este cliente final apresenta hoje facetas pouco comuns relativamente ao passado. Reclamações de todo o tipo aprecem, umas lógicas, outras que vão do ridículo à pura invenção.
(...) A importância dos mercados habituais geradores da melhor qualidade de turismo decresceu mutio. O nosso primeiro mercado é hoje a Europa, quer em número quer em resultados económicos; também mudaram os destinos da exportação, quer de nacionais quer de estrangeiros, que tinham como ponto de partida Portugal. Os programas de outgoing são cada vez mais carregados e menos interessantes, sobre todos os pontos de vista, obrigando o profissional a um desgaste duplo para manter o cliente final interessado pelo produto, que mais uma vez, resulta da filosofia da massificação e do baixo custo.
Assistimos hoje ao aparecimento de agentes que nascem como cogumelos e desaparecem como o vento. Nunca se tinha assistido a tantos processos de falência, algumas vezes apenas após um ano de abertura.
Um dos problemas mais concretos e lentos de resolver é o do não pagamento de serviços por parte de entidades que se orientam pela precaridade e pela má gestão, desabando ao mínimo sinal de dificuldade, deixando atrás de si um monte de dívidas; estes casos têm um número que, em dois anos, é superior ao dos últimos dez anos.
(...) No que concerne às entidades oficiais, com autoridade nas matérias que nos tocam, o panorama qualitativo não é muito melhor: muita cordialidade e deferência, seguidas de muita insensibilidade aos nossos problemas e muita ignorância legislativa, sem esquecer a ignorãncia do que é a profissão; tanta que nem a denominação correcta conseguem utilizar.
(...) Não é novidade para a maior parte de nós, mas é bom dar a conhecer aos colegas mais novos a situação particular com os ministérios das Finanças e do Trabalho: as diferenças de conceito, desde sempre expressas por estes ministérios, fez-nos viajar pelas categorias de trabalhadores independentes (profissão liberal), passando depois para empresário em nome individual e regressar aos independentes, à mistura com períodos de participação no regime de segurança social com carácter facultativo, com descontos para a caixa dos independentes; depois, interditados de contribuír com descontos para qualquer regime durante dez anos (1982 a 1992); depois, para o regime geral e finalmente de volta ao regime dos independentes.
(...) Por isso precisamos de criar estruturas que se coadunem com os novos desafios e nos permitam ter a definição do que somos, até onde vão as nossas responsabilidades e os nosso direitos. Precisamos de flexibilidade, de total integração nas novas tecnologias, de capacidade de previsão a médio e longo prazo e, seguramente, necessitamos de empenhamento colectivo real, no interesse de todos pela profissão, que só encontraremos num enquadramento legal bem como na criação de um estatuto profissional sério, com um código deontológico forte, se quisermos continuar sendo os melhores entre os melhores.

 

Excerto da intervenção "Os Profissionais de Informação Turística num Mercado em Evolução: Associação e Estatuto da Profissão", feita pelo colega Luís Lopes, durante o Congresso:

“Se algum cliente tiver o desplante de entrar na agência para se queixar do guia, é imediatamente corrido a pontapé” (a frase é dum colega, nos finais da década de 80, sobre um determinado operador do Sul de Espanha, especializado em circuitos a Marrocos, estilo tudo-ao-monte-e-fé-em-Deus). De facto, e passe a caricatura, a realidade não era muito diferente.


Nesses tempos, e noutros ainda anteriores, com
- o privilégio que era o “poder viajar”,
- as fidelizações de clientela relativamente fáceis,
- a escassez de profissionais com conhecimentos e técnica de acompanhamento de turistas,
a margem de tolerância, em relação a comportamentos hoje em dia impensáveis, era quase total. Justiça seja aqui feita aos profissionais portugueses que, com uma sólida formação de base (o curso de Guia-Intérprete), e uma aptidão nata para o domínio fácil de idiomas estrangeiros, sempre se distinguiram dos “curiosos” e dos “jeitosos” e contribuíram, em muito, para o inegável prestígio de que a profissão disfrutou.


A nível institucional, os antigos SNI e SEIT, conscientes da nossa visão global do Turismo, adquirida com
- uma formação especializada e direccionada,
- um verdadeiro know-how ganho ao longo de anos no acompanhamento de turistas (e com o perfeito conhecimento do sentir destes),
- o contacto com realidades de outros países,
não teve quaisquer dúvidas em “conceder-nos” o papel privilegiado de interlocutores. Os Profissionais de Informação Turística gozavam – justamente – duma grande credibilidade e prestígio. Lembro-me de que, dizer que se era Guia-Intérprete, tinha distinção.


Ora são exactamente esse prestígio, essa imagem, essa credibilidade, esse reconhecimento que é inadiável começar a recuperar. E isto porque, paradoxalmente, foi na altura das grandes oportunidades para as diferentes classes profissionais obterem ganhos sociais, que nós nos deixámos adormecer, ou simplesmente nos distraímos, e ficámos para trás, não raro vítimas das nossas próprias contradições e reféns dos nossos próprios preconceitos (preconceitos que, felizmente temos vindo a abandonar por inúteis e prejudiciais).


No plano estritamente profissional, a “democratização do viajar” abriu a novas camadas da população o acesso a essa forma de lazer e de aquisição de cultura. Os clientes tinham mudado sem que, da parte de muitos profissionais, houvesse disso uma percepção. Gradualmente, os discursos microfónicos de uma hora sobre história, que antes eram aplaudidos quase de pé no autocarro, tornaram-se desinteressantes e, até, insuportáveis para um crescente número de turistas. A informação torrencial, outrora virtude de quem a fornecia, estava démodé e não cativava. Serviço, serviço, serviço - era o que os novos clientes esperavam. Era mais importante informar com exactidão onde estava a paragem de autocarro ou o multibanco mais próximo do que falar abundantemente do principal herói da história do país. O importante deixou de ser o "ser bom”, para passar a ser o “agradar muito”. E houve quem não se apercebesse disso...


Mais recentemente, esse mercado em expansão abrandou (fruto de crises económicas e cambiais e de ataques terroristas) e a concorrência desenfreada instalou-se, com as fidelizações de clientela a tornarem-se difíceis. A tolerância para erros passou a zero, a responsabilidade pelo que se diz e faz passou a ser enorme. O Profissional de Informação Turística, passou a ser um instrumento fundamental da fidelização das clientelas. O Profissional de Informação Turística passou a ser um parceiro comercial, em quem os operadores cada vez mais têm que confiar uma boa parcela do futuro dos seus negócios.


É nesta perspectiva, e com esta mentalidade, que equacionamos uma associação profissional, que
- valorize o nosso potencial,
- que potencie o nosso know-how e a nossa visão global,
- que nos imponha, naturalmente, como válidos e importantes interlocutores,
- que nos ajude a promover-nos como parceiros comerciais aceites como tal,
- que nos permita recuperar a imagem, a credibilidade, o reconhecimento, o prestígio.
E que nos permita obter o Estatuto da Profissão, com um novo enquadramento legal compreendendo as componentes da formação, a restrição pela Qualidade do acesso à profissão e a exclusividade e responsabilidade no seu exercício.

 

Excerto da intervenção "Abertura: (...), razões para um Congresso", feita pelo colega Luís Lopes:

"Mais do que uma oportunidade para nos encontrarmos, fora de serviço, o que, dada a raridade, já seria razão bastante para um evento como este, o Congresso que ora começa foi organizado para podermos fazer, com a contribuição do maior número possível de profissionais, uma avaliação séria da nossa situação profissional e associativa, do nosso papel no grande, mas específico, mundo do Turismo e apontar caminhos para o futuro.


Encontramo-nos, actualmente, e com indícios preocupantes de agravamento, num contexto particularmente difícil para nós, em que se combinam factores adversos de ordem externa (como a abertura dos mercados de trabalho, à luz da livre circulação de pessoas, na União Europeia) e interna (como a sempre tentadora, e não raro executada, opção pelo esmagamento, e até supressão, de custos como solução para concorrer em preços, naquilo em que podemos e devíamos concorrer em conteúdos diferenciadores e de qualidade). Esta situação prefigura graves riscos e ameaças para a nossa profissão e, consequentemente, para o nosso futuro. Torna-se, assim, não só necessário mas também inadiável darmos forma aos instrumentos que nos permitirão olhar em frente com confiança. É esse o objectivo supremo do Congresso que ora começa."

 

Excerto da intervenção "A Formação na Perspectiva do Correio de Turismo", feita pelo colega Carlos Carvalho, durante o Congresso:

“... E hoje? Hoje tudo mudou! Os clientes são muitíssimo mais exigentes. Não basta ser simpático ou ter uns olhos bonitos. Eles (os clientes) têm guias turísticos, eles preparam cuidadosamente a sua viagem com a ajuda da internet... Os operadores desdobram-se em soluções que não contemplam os Correios oficiais.
O trabalho está ameaçado!!!
- Que fazer?
- IMPRESCINDIBILIDADE!!!
Os combates que se aproximam só poderão ter algum êxito com:
- Preparação – Formação de base
- Qualidade – Formação contínua
- Formação de base que nos dará uma Carteira Profissional e argumentos para lutar!
- Formação contínua – para nos manter super-actualizados!
Num mundo muito dinâmico, tudo muda: preços, itinerários, países que se pulverizam (ex.: Jugoslávia), etc.
São precisos encontros, palestras, minicursos, conferências...
TODOS OS ANOS!!!”

 

Texto completo da intervenção "Guias-Intérpretes - Memórias e Futuro" feita pelo colega Alberto Alves, durante o Congresso:

Em primeiro lugar, quero manifestar a minha alegria por estar hoje, aqui, convosco, após alguns anos de afastamento voluntário destas lides, e por me ser dada a possibilidade de conversar um pouco com todos vós.


Em segundo lugar, considero uma honra ser um dos oradores neste Congresso, evento que me esforcei por levar a cabo há cerca de 10/12 anos, mas que por circunstâncias diversas não consegui concretizar.


Nada perdido, mais vale tarde do que nunca e aqui estamos hoje, todos juntos, para uma jornada que poderá ser memorável para a nossa vida associativa, na medida em que tem este Congresso o propósito principal de modificar a nossa forma de associação profissional, Disso tratarão outros colegas.


Pediu-me o meu amigo Luís Lopes que dissesse algumas palavras alusivas a esta reunião, tendo em vista a juventude duma larguíssima parte dos colegas aqui presentes. Nesse sentido, pensei que seria interessante fazer, embora duma forma ligeira, uma retrospectiva do longo caminho percorrido até agora e dizer um pouco daquilo que penso relativamente ao futuro.


Como vou falar para contadores da História e de grandes histórias, irei eu próprio contar-vos, igualmente, uma história que começa mais ou menos com o advento da República.


Efectivamente, foi publicada em 1912 a primeira legislação relativa a Guias Intérpretes e Intérpretes a qual, ao longo dos anos seguintes, foi aumentada e melhorada sem contudo lograr disciplinar o exercício da actividade.


Nesse tempo, quase tudo se passava no Cais da Rocha do Conde de Óbidos onde, todos os dias, atracavam navios de linhas regulares e alguns cruzeiros, tornando-se aquele local um importante centro gerador de trabalho turístico em Lisboa.


Tomei conhecimento, através de várias pessoas que acompanharam, ao longo de décadas, o trabalho dos guias intérpretes, que o ambiente respectivo era o pior que se possa imaginar. Estes profissionais estavam sujeitos a prepotências por parte das agências de viagens, da polícia administrativa e da polícia de turismo, verificando-se, paralelamente, uma luta terrível entre eles próprios no sentido de conseguirem trabalhar.


É bom que fique claro que, já nesse tempo, havia também outras pessoas, que não os guias, que se dedicavam igualmente ao acompanhamento de turistas pela cidade.


Portanto, vivia-se uma situação caótica a que urgia pôr termo. Assim, um grupo de profissionais solicita às autoridades a criação de um sindicato que foi autorizada em 1936 mas que começou mal, com apenas 45 pessoas inscritas e com a guerra civil de Espanha a começar nesse mesmo ano. Seguiu-se a segunda guerra mundial, até 1945.


Em consequência, a actividade turística cessou completamente. Foram anos extremamente difíceis para aqueles profissionais, tendo alguns procurado outras actividades.


A pouco e pouco, começa uma ligeira recuperação e o nosso sindicato volta a ter alguma actividade. Foi seu primeiro presidente o Snr. Ferreira Borges, homem de forte personalidade e que devotava ao turismo e, em particular à nossa causa, o melhor da sua energia e do seu saber. Foi ele que rapidamente percebeu a importância duma preparação diferente para o desempenho da profissão. Corriam os anos 50 e o sindicato dava já alguma formação aos futuros guias intérpretes. Ele sempre tentou que o sindicato fosse a entidade responsável e orientadora dessa mesma formação.


Nesse sentido, e já nos anos 60, ele conseguiu organizar um curso de recepcionistas de turismo ao qual se seguiu um curso de guias intérpretes levado a cabo em colaboração com o SNI. Para garantir a alta qualidade destas duas iniciativas, o sindicato contratou professores universitários e técnicos de elevada categoria, tais como o Professor Borges de Macedo, Professor Ferreira de Almeida, Engº. Santos Simões, o Snr. Carlos de Barros e outros cujos nomes já não recordo. Foram ministradas 19 matérias diferentes, durante 6 meses completos, sábados e domingos incluídos, a 6 horas por dia, com algumas visitas guiadas e prática em autocarro.


Estamos a meio da década de 60, com o turismo a crescer rapidamente. Havia muito trabalho, vivendo-se, portanto, um período bastante favorável aos guias intérpretes.


Por outro lado, o sindicato mantinha excelentes relações com o SNI e era um dos doze membros do Conselho Nacional do Turismo, o mais alto órgão consultivo do Secretário de Estado. Era o único Sindicato aí representado. Éramos consultados frequentemente para os mais diversos assuntos, sendo a nossa opinião considerada como muito valiosa na formulação das decisões mais diversas que os Serviços Oficiais tinham que tomar.


Quero com isto dizer que o nosso sindicato tinha peso e visibilidade que lhe advinham do seu saber e da sua maneira de estar.


Foi por essa altura que discutimos e preparámos, em colaboração com a Secretaria de Estado, uma nova legislação que passou a regular a nossa actividade em moldes modernos e que criou, pela primeira vez, uma carreira profissional na nossa actividade, que começava na categoria de guia regional e cujo topo era a categoria de guia de arte.


Foi um período de grande actividade sindical, com assembleias gerais sucessivas, o sindicato completamente cheio com gente na escada até à rua. A lei antes referida foi discutida e votada artigo a artigo e aprovada por unanimidade, facto que levou o Secretário de Estado a aceitá-la tal como desejávamos, tendo sido publicada rapidamente.


Foi empolgante viver aqueles dias em que um sindicato resolvia os seus assuntos duma forma inteiramente democrática. Nunca tinha acontecido nada assim em Portugal.


Estamos nos finais da década de 60 com o sindicato prestigiado e a sua acção dignificada.


Por esta altura surge um facto novo : a criação do INP e do ISLA, tendo como principal finalidade a formação de guias intérpretes em modelo escolar. Esta preparação deixa de ser gratuita e o sindicato termina a sua acção neste campo.


O sindicato opôs-se fortemente a que isto acontecesse, por razões diversas, e em audiência com o Secretário de Estado, com grande surpresa nossa, fomos informados de que o Governo entendia ser forçoso democratizar (entenda-se abrir) o acesso à profissão.


Entretanto, o sindicato nunca descurou o aspecto cultural tendo organizado também, nessa época, as saudosas jornadas culturais dos guias intérpretes constituídas por conferências e visitas guiadas, abertas ao público em geral e que constituíram um acontecimento assinalável no panorama cultural de Lisboa.


No princípio da década de 70, um grupo de guias lança-se à conquista de novos mercados de trabalho e mercê de um espírito inovador, competência e profissionalismo, consegue exercer a sua actividade para as maiores empresas europeias e norte-americanas da época. Deu- -se, assim, um salto qualitativo e quantitativo muito importante.


Depois de 1974. viveu-se um período muito agitado que deu origem a oportunismos, a atitudes insensatas, etc.,, etc., tornando-se a situação económica do sindicato bastante difícil, da qual começou a recuperar na década de 80. Voltámos às iniciativas de carácter cultural, com ciclos anuais de palestras e visitas guiadas. A meio da década de 90, comemorámos, com solenidade e pela primeira vez, o dia mundial do guia intérprete.


A nível externo, debatemo-nos com grandes dificuldades nas negociações com a APAVT, pelo que fomos forçados a publicar, unilateralmente, tabelas de honorários, o que, ao fim e ao cabo, não me parece mal de todo.


Essas negociações, que duraram alguns anos e levaram à nossa classificação como trabalhadores independentes, a certa altura tomaram um rumo de tal ordem desagradável, que conduziu à convocação de uma greve (1991) que obteve grande adesão.


Em 1995 o Sindicato foi condecorado com a Medalha de Ouro de Mérito Turístico, reconhecimento público do valor do nosso trabalho.


Quero salientar os Encontros de Fátima para os Guias Intérpretes que, por gentileza do Senhor Reitor do Santuário de Fátima, Dr. Luciano Guerra, se têm realizado anualmente, desde há cerca de 15 anos, com êxito assinalável, constituindo sempre uma mais valia cultural para os participantes.


Tivemos oportunidade de colaborar na preparação da legislação que aplica, em Portugal, as Directivas da CEE relativas aos guias intérpretes, tendo-se recebido um forte apoio do Grupo de Trabalho que integrámos.


Entretanto, o Conselho Nacional de Turismo, que se transformara num campo de batalha sindical que nada tinha a ver com o turismo, foi extinto.


Fazíamos, igualmente, parte do Conselho Pedagógico de várias Escolas Oficiais de Turismo e Hotelaria. Não sei qual é a posição actual.


Temos sido ignorados na organização de um número infindável de acontecimentos para os quais poderíamos ter dado um contributo a todos os títulos válido. Perdemos, portanto, visibilidade e peso.


Gostaria de deixar aqui a ideia, que formei ao longo dos anos, de que uma larga parte dos nossos interlocutores tem mostrado por palavras e actos desconhecimento da problemática do turismo em geral.


Contudo, as nossas iniciativas com vista à reciclagem e aquisição de novos conhecimentos têm continuado a bom ritmo.
Do meu ponto de vista, constituímos, dentro da actividade turística, o grupo profissional mais preparado académica e tecnicamente, o mais experiente com uma visão global da problemática turística que nos advém do exercício da própria profissão através do mundo, pelo contacto constante com diferentes realidades e maneiras de trabalhar. Daí, possuirmos termos de avaliação e de comparação com o que se faz no nosso país.


Assim, prevejo para a nossa Associação um futuro interessante, muito participativo e valioso na discussão da problemática do turismo nacional. É importante aparecermos e exprimirmos as nossas opiniões; devemos estar atentos ao desenrolar dos acontecimentos.


Gostaria de lançar algumas questões que considero pertinentes:


a) Para quando a criação do Ministério do Turismo?
b) Para quando a extinção dessa tremenda aberração que são as mais de 20 Regiões de Turismo ?
c) Para quando uma política de turismo preparada cuidadosamente por gente que saiba o que faz ?
d) Para quando a ocupação de cargos oficiais em Ministérios, Autarquias, etc., por profissionais de turismo ?
e) Porque falhou Foz Côa ? Porque falha Tróia ? Porque falham outras coisas ? Porque razão se continua a plantar betão ao longo da costa ?
f) Será que se promove o turismo com festivais de sardinhas, de caldeiradas, com muitas tasquinhas, com o ICEP, com as Regiões de Turismo, com os Municípios e com as Juntas de Freguesia ? Que sabem eles disso ?
Questionarão alguns colegas : mas nós temos que nos preocupar com isso tudo ? Penso que sim. É do turismo que vivemos e o turismo tem, hoje, um peso fundamental na formação do PIB e é gerador de postos de trabalho, directo e indirecto, que constituem riqueza para a Nação.


Termino com duas citações:


“ A profissão de guia intérprete tem ocupado uma posição injusta no ranking das actividades profissionais. Ou é simplesmente desconhecida ou considerada de somenos importância.”
Dr. Carvalho Oliveira e Dr. José Cymbron, in “Ser Guia Intérprete em Portugal”


“Somos o que somos, por opção”. Isabel Barreiros (21-2-1995)


Pela minha parte, deixo-vos a mensagem: Sejamos senhores do nosso destino.