O Dia Internacional do Guia-Intérprete e a AGIC, no Diário de Notícias
notícia
Jantar-convívio do Dia Internacional do Guia-Intérprete (21Fev06)
fotos
A AGIC promoveu um jantar-convívio para celebrar o Dia Internacional do Guia-Intérprete. Este teve lugar no Restaurante Alfândega, em Lisboa, e contou com a presença dum razoável número de colegas.
Durante o evento, foi prestada uma homenagem a W. A. Mozart, expoente da cultura universal nascido há 250 anos. A soprano Alexandra Filipe e a pianista Viviena Toupikova brindaram os presentes com duas árias da ópera "Le Nozze di Figaro", excelentemente interpretadas e que mereceram caloroso aplauso.
Mozart foi, também, evocado como fonte de inspiração e estímulo para o nosso trabalho, como criativo, como homem de Cultura e divulgador de Cultura, como viajante, como poliglota, como espírito cosmopolita e universal e transmitindo o seu Conhecimento, a sua Arte numa linguagem acessível à compreensão dos outros. Este jantar serviu, finalmente, para reencontrar colegas, num ambiente de descontracção e para fazermos um ponto da situação dos Guias-Intérpretes face à Directiva Bolkestein, recentemente aprovada no Parlamento Europeu.
Agradecemos a simpatia da Ana Malta (R. Alfândega) e a magia da Alexandra e da Viviena.
A
AGIC na BTL 2006
Em
muitos anos de existência legal das profissões de Guia-Intérprete
e Correio de Turismo, foi esta a primeira vez que uma organização
sua representante participou, com stand próprio, numa Feira
de Turismo, em Portugal. Coube à AGIC o papel de pioneira, e
só podemos estar orgulhosos de tal, pois esta participação
na BTL 2006 traduziu-se num êxito assinlável.
Desde logo, a afluência de Guias-Intérpretes e Correios de Turismo
foi em número considerável, não raro em simultâneo,
o que proporcionou uma excelente oportunidade de convívio. Depois, porque
a maioria dos até então não-sócios concretizou a
sua adesão à nossa Associação. E, só por isso,
já teria valido a pena.
Mas esta presença na BTL possibilitou, ainda, contactos entre a AGIC e
várias organizações públicas e privadas do sector,
incluíndo operadores turísticos e organismos seus representantes,
o que irá, certamente, produzir os seus frutos.
Com tudo isto, a AGIC cimentou a sua importância no sector do Turismo
e a sua credibilidade como interlocutor representante dos interesses e direitos
dos Guias-Intérpretes e Correios de Turismo.
Fotos BTL 2006
FUNDAÇÃO
DA AGIC
Em 13 de Maio de 2004, teve lugar, no 8º Cartório Notarial de Lisboa,
a escritura de constituição da AGIC – Associação
Portuguesa dos Guias-Intérpretes e Correios de Turismo. Dá-se,
assim, corpo a uma ambição destas classes profissionais no sentido
da sua dignificação e recuperação do prestígio,
e que passará, também, por um enquadramento legal que garanta
o seu futuro e o reconhecimento da sua importância no Turismo.
O Congresso
Nacional de Guias-Intérpretes e Correios de Turismo, que se
realizou no Hotel Holiday Inn Lisbon, no passado dia 31 de Janeiro
de 2004, permanecerá como um marco na já longa história
destas profissões, ao ter caucionado esta fundação.
O projecto então proposto teve uma receptividade entusiástica,
traduzida não só nos apoios e elogios manifestados durante
o evento, como também na grande adesão expressa na imediata
inscrição (com o pagamento da respectiva jóia)
de mais de 80 participantes, não tendo muitos deles sequer esperado
pelo fim dos trabalhos!
CONGRESSO NACIONAL DE GUIAS-INTÉRPRETES E CORREIOS DE TURISMO
Lisboa,
31Jan04
Excerto
da intervenção
"Situação Profissional", feita pela colega Isabel
Barreiro, durante o Congresso:
(...)
Temos uma profissão legislada desde 1979/80, reconhecida e regulamentada
por várias directivas comunitárias, pelo menos desde
1999.
(...) O exercício profissional enfrenta hoje exigências
maiores e mais variadas, com graus de eficiência de desempenho
muito mais elevados, em campos tão multifacetados como a ecologia,
o desporto, e economia, a sociologia, etc., aliados, claro, a todos os
temas clássicos
que vão da História e da arte à enologia...
(...) Apesar de tudo, temos tentado sempre conseguir que o cliente final
tenha o grau de satisfação que merece.
Mas também este cliente final apresenta hoje facetas pouco comuns
relativamente ao passado. Reclamações de todo o tipo aprecem,
umas lógicas, outras que vão do ridículo à pura
invenção.
(...) A importância dos mercados habituais geradores da melhor qualidade
de turismo decresceu mutio. O nosso primeiro mercado é hoje a Europa,
quer em número quer em resultados económicos; também
mudaram os destinos da exportação, quer de nacionais quer
de estrangeiros, que tinham como ponto de partida Portugal. Os programas
de outgoing são cada vez mais carregados e menos interessantes,
sobre todos os pontos de vista, obrigando o profissional a um desgaste
duplo para manter o cliente final interessado pelo produto, que mais uma
vez, resulta da filosofia da massificação e do baixo custo.
Assistimos hoje ao aparecimento de agentes que nascem como cogumelos
e desaparecem como o vento. Nunca se tinha assistido a tantos processos
de falência, algumas vezes apenas após um ano de abertura.
Um dos problemas mais concretos e lentos de resolver é o do não
pagamento de serviços por parte de entidades que se orientam pela
precaridade e pela má gestão, desabando ao mínimo
sinal de dificuldade, deixando atrás de si um monte de dívidas;
estes casos têm um número que, em dois anos, é superior
ao dos últimos dez anos.
(...) No que concerne às entidades oficiais, com autoridade nas
matérias
que nos tocam, o panorama qualitativo não é muito melhor:
muita cordialidade e deferência, seguidas de muita insensibilidade
aos nossos problemas e muita ignorância legislativa, sem esquecer
a ignorãncia do que é a profissão; tanta que nem
a denominação correcta conseguem utilizar.
(...) Não é novidade para a maior parte de nós,
mas é bom
dar a conhecer aos colegas mais novos a situação particular
com os ministérios das Finanças e do Trabalho: as diferenças
de conceito, desde sempre expressas por estes ministérios, fez-nos
viajar pelas categorias de trabalhadores independentes (profissão
liberal), passando depois para empresário em nome individual e
regressar aos independentes, à mistura com períodos de
participação
no regime de segurança social com carácter facultativo,
com descontos para a caixa dos independentes; depois, interditados de
contribuír
com descontos para qualquer regime durante dez anos (1982 a 1992); depois,
para o regime geral e finalmente de volta ao regime dos independentes.
(...) Por isso precisamos de criar estruturas que se coadunem com os
novos desafios e nos permitam ter a definição do que somos, até onde
vão as nossas responsabilidades e os nosso direitos. Precisamos
de flexibilidade, de total integração nas novas tecnologias,
de capacidade de previsão a médio e longo prazo e, seguramente,
necessitamos de empenhamento colectivo real, no interesse de todos pela
profissão, que só encontraremos num enquadramento legal bem
como na criação de um estatuto profissional sério,
com um código deontológico forte, se quisermos continuar
sendo os melhores entre os melhores.
Excerto
da intervenção
"Os Profissionais de Informação Turística num Mercado em Evolução:
Associação e Estatuto da Profissão", feita pelo colega Luís
Lopes, durante o Congresso:
“Se
algum cliente tiver o desplante de entrar na agência para se
queixar do guia, é imediatamente corrido a pontapé” (a
frase é dum
colega, nos finais da década de 80, sobre um determinado
operador do Sul de Espanha, especializado em circuitos a Marrocos, estilo
tudo-ao-monte-e-fé-em-Deus). De facto, e passe a caricatura, a
realidade não era muito diferente.
Nesses tempos, e noutros ainda anteriores, com
- o privilégio que era o “poder viajar”,
- as fidelizações de clientela relativamente fáceis,
- a escassez de profissionais com conhecimentos e técnica de acompanhamento
de turistas,
a margem de tolerância, em relação a comportamentos
hoje em dia impensáveis, era quase total. Justiça seja aqui
feita aos profissionais portugueses que, com uma sólida formação
de base (o curso de Guia-Intérprete), e uma aptidão nata
para o domínio fácil de idiomas estrangeiros, sempre se distinguiram
dos “curiosos” e dos “jeitosos” e contribuíram,
em muito, para o inegável prestígio de que a profissão
disfrutou.
A nível institucional, os antigos SNI e SEIT, conscientes da nossa
visão global do Turismo, adquirida com
- uma formação especializada e direccionada,
- um verdadeiro know-how ganho ao longo de anos no acompanhamento de
turistas (e com o perfeito conhecimento do sentir destes),
- o contacto com realidades de outros países,
não teve quaisquer dúvidas em “conceder-nos” o
papel privilegiado de interlocutores. Os Profissionais de Informação
Turística gozavam – justamente – duma grande credibilidade
e prestígio. Lembro-me de que, dizer que se era Guia-Intérprete,
tinha distinção.
Ora são exactamente esse prestígio, essa imagem, essa credibilidade,
esse reconhecimento que é inadiável começar a recuperar.
E isto porque, paradoxalmente, foi na altura das grandes oportunidades
para as diferentes classes profissionais obterem ganhos sociais, que nós
nos deixámos adormecer, ou simplesmente nos distraímos, e
ficámos para trás, não raro vítimas das nossas
próprias contradições e reféns dos nossos próprios
preconceitos (preconceitos que, felizmente temos vindo a abandonar por
inúteis e prejudiciais).
No plano estritamente profissional, a “democratização
do viajar” abriu a novas camadas da população
o acesso a essa forma de lazer e de aquisição de
cultura. Os clientes tinham mudado sem que, da parte de muitos
profissionais, houvesse disso
uma percepção. Gradualmente, os discursos microfónicos
de uma hora sobre história, que antes eram aplaudidos quase
de pé no
autocarro, tornaram-se desinteressantes e, até, insuportáveis
para um crescente número de turistas. A informação
torrencial, outrora virtude de quem a fornecia, estava démodé e
não cativava. Serviço, serviço, serviço
- era o que os novos clientes esperavam. Era mais importante informar
com exactidão
onde estava a paragem de autocarro ou o multibanco mais próximo
do que falar abundantemente do principal herói da história
do país. O importante deixou de ser o "ser bom”,
para passar a ser o “agradar muito”. E houve quem não
se apercebesse disso...
Mais recentemente, esse mercado em expansão abrandou (fruto de crises
económicas e cambiais e de ataques terroristas) e a concorrência
desenfreada instalou-se, com as fidelizações de clientela
a tornarem-se difíceis. A tolerância para erros passou a zero,
a responsabilidade pelo que se diz e faz passou a ser enorme. O Profissional
de Informação Turística, passou a ser um instrumento
fundamental da fidelização das clientelas. O Profissional
de Informação Turística passou a ser um parceiro comercial,
em quem os operadores cada vez mais têm que confiar uma boa parcela
do futuro dos seus negócios.
É
nesta perspectiva, e com esta mentalidade, que equacionamos uma associação
profissional, que
- valorize o nosso potencial,
- que potencie o nosso know-how e a nossa visão global,
- que nos imponha, naturalmente, como válidos e importantes interlocutores,
- que nos ajude a promover-nos como parceiros comerciais aceites
como tal,
- que nos permita recuperar a imagem, a credibilidade, o reconhecimento,
o prestígio.
E que nos permita obter o Estatuto da Profissão, com um novo enquadramento
legal compreendendo as componentes da formação, a restrição
pela Qualidade do acesso à profissão e a exclusividade e
responsabilidade no seu exercício.
Excerto
da intervenção
"Abertura: (...), razões para um Congresso", feita pelo colega Luís
Lopes:
"Mais
do que uma oportunidade para nos encontrarmos, fora de serviço,
o que, dada a raridade, já seria razão
bastante para um evento como este, o Congresso que ora começa
foi organizado para podermos fazer, com a contribuição
do maior número possível de profissionais, uma avaliação
séria da nossa situação profissional e associativa,
do nosso papel no grande, mas específico, mundo do Turismo e apontar
caminhos para o futuro.
Encontramo-nos, actualmente, e com indícios preocupantes de agravamento,
num contexto particularmente difícil para nós, em que
se combinam factores adversos de ordem externa (como a abertura dos
mercados
de trabalho, à luz da livre circulação de pessoas,
na União Europeia) e interna (como a sempre tentadora, e não
raro executada, opção pelo esmagamento, e até supressão,
de custos como solução para concorrer em preços,
naquilo em que podemos e devíamos concorrer em conteúdos
diferenciadores e de qualidade). Esta situação prefigura
graves riscos e ameaças para a nossa profissão e, consequentemente,
para o nosso futuro. Torna-se, assim, não só necessário
mas também inadiável darmos forma aos instrumentos que
nos permitirão olhar em frente com confiança. É esse
o objectivo supremo do Congresso que ora começa."
Excerto
da intervenção "A Formação na Perspectiva do Correio de Turismo",
feita pelo colega Carlos
Carvalho, durante o Congresso:
“... E hoje? Hoje tudo mudou! Os clientes são
muitíssimo mais exigentes. Não basta ser simpático
ou ter uns olhos bonitos. Eles (os clientes) têm guias turísticos,
eles preparam cuidadosamente a sua viagem com a ajuda da internet...
Os operadores desdobram-se em soluções que não contemplam
os Correios oficiais.
O trabalho está ameaçado!!!
- Que fazer?
- IMPRESCINDIBILIDADE!!!
Os combates que se aproximam só poderão ter algum êxito
com:
- Preparação – Formação de base
- Qualidade – Formação contínua
- Formação de base que nos dará uma Carteira Profissional
e argumentos para lutar!
- Formação contínua – para nos manter super-actualizados!
Num mundo muito dinâmico, tudo muda: preços, itinerários,
países que se pulverizam (ex.: Jugoslávia), etc.
São precisos encontros, palestras, minicursos, conferências...
TODOS OS ANOS!!!”
Texto
completo da intervenção "Guias-Intérpretes - Memórias e Futuro" feita
pelo colega Alberto Alves, durante o Congresso:
Em primeiro
lugar, quero manifestar a minha alegria por estar hoje, aqui, convosco,
após
alguns anos de afastamento voluntário destas lides, e por me ser
dada a possibilidade de conversar um pouco com todos vós.
Em segundo lugar, considero uma honra ser um dos oradores neste Congresso,
evento que me esforcei por levar a cabo há cerca de 10/12 anos,
mas que por circunstâncias diversas não consegui concretizar.
Nada perdido, mais vale tarde do que nunca e aqui estamos hoje, todos
juntos, para uma jornada que poderá ser memorável para a nossa vida
associativa, na medida em que tem este Congresso o propósito principal
de modificar a nossa forma de associação profissional, Disso
tratarão outros colegas.
Pediu-me o meu amigo Luís Lopes que dissesse algumas palavras alusivas
a esta reunião, tendo em vista a juventude duma larguíssima
parte dos colegas aqui presentes. Nesse sentido, pensei que seria interessante
fazer, embora duma forma ligeira, uma retrospectiva do longo caminho percorrido
até agora e dizer um pouco daquilo que penso relativamente
ao futuro.
Como vou falar para contadores da História e de grandes histórias,
irei eu próprio contar-vos, igualmente, uma história que
começa mais ou menos com o advento da República.
Efectivamente, foi publicada em 1912 a primeira legislação
relativa a Guias Intérpretes e Intérpretes a qual, ao longo
dos anos seguintes, foi aumentada e melhorada sem contudo lograr disciplinar
o exercício da actividade.
Nesse tempo, quase tudo se passava no Cais da Rocha do
Conde de Óbidos
onde, todos os dias, atracavam navios de linhas regulares e alguns cruzeiros,
tornando-se aquele local um importante centro gerador de trabalho turístico
em Lisboa.
Tomei conhecimento, através de várias pessoas que acompanharam,
ao longo de décadas, o trabalho dos guias intérpretes, que
o ambiente respectivo era o pior que se possa imaginar. Estes profissionais
estavam sujeitos a prepotências por parte das agências de viagens,
da polícia administrativa e da polícia de turismo, verificando-se,
paralelamente, uma luta terrível entre eles próprios
no sentido de conseguirem trabalhar.
É
bom que fique claro que, já nesse tempo, havia também outras
pessoas, que não os guias, que se dedicavam
igualmente ao acompanhamento de turistas pela cidade.
Portanto, vivia-se uma situação caótica a que urgia
pôr termo. Assim, um grupo de profissionais solicita às autoridades
a criação de um sindicato que foi autorizada em 1936 mas
que começou mal, com apenas 45 pessoas inscritas e com a guerra
civil de Espanha a começar nesse mesmo ano. Seguiu-se a segunda
guerra mundial, até 1945.
Em consequência, a actividade turística cessou completamente.
Foram anos extremamente difíceis para
aqueles profissionais, tendo alguns procurado
outras actividades.
A pouco e pouco, começa uma ligeira recuperação e
o nosso sindicato volta a ter alguma actividade. Foi seu primeiro presidente
o Snr. Ferreira Borges, homem de forte personalidade e que devotava ao
turismo e, em particular à nossa causa, o melhor da sua energia
e do seu saber. Foi ele que rapidamente percebeu a importância duma
preparação diferente para o desempenho da profissão.
Corriam os anos 50 e o sindicato dava já alguma formação
aos futuros guias intérpretes. Ele sempre tentou que o sindicato
fosse a entidade responsável e orientadora dessa mesma formação.
Nesse sentido, e já nos anos 60, ele conseguiu organizar um curso
de recepcionistas de turismo ao qual se seguiu um curso de guias intérpretes
levado a cabo em colaboração com o SNI. Para garantir a alta
qualidade destas duas iniciativas, o sindicato contratou professores universitários
e técnicos de elevada categoria, tais como o Professor Borges de
Macedo, Professor Ferreira de Almeida, Engº. Santos Simões, o Snr.
Carlos de Barros e outros cujos nomes já não recordo. Foram
ministradas 19 matérias diferentes, durante 6 meses completos, sábados
e domingos incluídos, a 6 horas por dia, com algumas visitas guiadas
e prática em autocarro.
Estamos a meio da década de 60, com o turismo a crescer rapidamente.
Havia muito trabalho, vivendo-se, portanto, um período bastante
favorável aos guias intérpretes.
Por outro lado, o sindicato mantinha excelentes
relações
com o SNI e era um dos doze membros do Conselho Nacional do Turismo, o
mais alto órgão consultivo do Secretário de Estado.
Era o único Sindicato aí representado. Éramos consultados
frequentemente para os mais diversos assuntos, sendo a nossa opinião
considerada como muito valiosa na formulação das decisões
mais diversas que os Serviços Oficiais tinham que tomar.
Quero com isto dizer que o nosso sindicato
tinha peso e visibilidade que lhe advinham
do seu saber
e da sua
maneira
de estar.
Foi por essa altura que discutimos
e preparámos, em colaboração
com a Secretaria de Estado, uma nova legislação que passou
a regular a nossa actividade em moldes modernos e que criou, pela primeira
vez, uma carreira profissional na nossa actividade, que começava
na categoria de guia regional e cujo
topo era a categoria de guia de arte.
Foi um período de grande actividade sindical, com assembleias gerais
sucessivas, o sindicato completamente cheio com gente na escada até à rua.
A lei antes referida foi discutida e votada artigo a artigo e aprovada
por unanimidade, facto que levou o Secretário de Estado a aceitá-la
tal como desejávamos, tendo sido publicada rapidamente.
Foi empolgante viver aqueles dias
em que um sindicato resolvia
os seus assuntos
duma forma
inteiramente
democrática. Nunca tinha
acontecido nada assim em Portugal.
Estamos nos finais da década de 60 com o sindicato prestigiado e
a sua acção dignificada.
Por esta altura surge um facto
novo : a criação do INP e
do ISLA, tendo como principal finalidade a formação de guias
intérpretes em modelo escolar. Esta preparação deixa
de ser gratuita e o sindicato termina a sua acção
neste campo.
O sindicato opôs-se fortemente a que isto acontecesse, por razões
diversas, e em audiência com o Secretário de Estado, com grande
surpresa nossa, fomos informados de que o Governo entendia ser forçoso
democratizar (entenda-se abrir) o acesso à profissão.
Entretanto, o sindicato
nunca descurou o aspecto
cultural
tendo organizado
também, nessa época, as saudosas jornadas culturais dos guias
intérpretes constituídas por conferências e visitas
guiadas, abertas ao público em geral e que constituíram um
acontecimento assinalável no panorama cultural de Lisboa.
No princípio da década de 70, um grupo de guias lança-se à conquista
de novos mercados de trabalho e mercê de um espírito inovador,
competência e profissionalismo, consegue exercer a sua actividade
para as maiores empresas europeias e norte-americanas da época.
Deu- -se, assim, um salto qualitativo e quantitativo muito importante.
Depois de 1974. viveu-se
um período muito agitado que deu origem
a oportunismos, a atitudes insensatas, etc.,, etc., tornando-se a situação
económica do sindicato bastante difícil, da qual começou
a recuperar na década de 80. Voltámos às iniciativas
de carácter cultural, com ciclos anuais de palestras e visitas guiadas.
A meio da década de 90, comemorámos, com solenidade e pela
primeira vez, o dia mundial do guia intérprete.
A nível externo, debatemo-nos com grandes dificuldades nas negociações
com a APAVT, pelo que fomos forçados a publicar, unilateralmente, tabelas
de honorários, o que, ao fim e ao cabo, não
me parece mal de todo.
Essas negociações, que duraram alguns anos e levaram à nossa
classificação como trabalhadores independentes, a certa altura
tomaram um rumo de tal ordem desagradável, que conduziu à convocação
de uma greve (1991) que obteve grande adesão.
Em 1995 o Sindicato
foi condecorado com
a Medalha
de Ouro de
Mérito Turístico,
reconhecimento público do valor do nosso trabalho.
Quero salientar os
Encontros de Fátima para os Guias Intérpretes
que, por gentileza do Senhor Reitor do Santuário de Fátima, Dr.
Luciano Guerra, se têm realizado anualmente, desde há cerca de 15
anos, com êxito assinalável,
constituindo sempre
uma mais valia
cultural para os
participantes.
Tivemos oportunidade
de colaborar
na preparação da legislação
que aplica, em Portugal, as Directivas da CEE relativas aos guias intérpretes,
tendo-se recebido um forte apoio do Grupo de Trabalho que integrámos.
Entretanto, o
Conselho Nacional
de Turismo,
que se transformara
num
campo de batalha
sindical que
nada tinha
a ver com
o turismo,
foi extinto.
Fazíamos, igualmente, parte do Conselho Pedagógico de várias
Escolas Oficiais de Turismo e Hotelaria. Não sei qual é a posição
actual.
Temos sido
ignorados
na organização de um número infindável
de acontecimentos para os quais poderíamos ter dado um contributo a todos
os títulos válido. Perdemos, portanto, visibilidade e peso.
Gostaria
de deixar
aqui
a ideia,
que formei
ao longo
dos anos,
de que
uma larga
parte
dos nossos
interlocutores
tem mostrado
por palavras
e actos
desconhecimento
da problemática do turismo em geral.
Contudo,
as
nossas iniciativas
com
vista à reciclagem e aquisição
de novos conhecimentos têm
continuado
a bom
ritmo.
Do
meu
ponto
de
vista,
constituímos, dentro da actividade turística,
o grupo profissional mais preparado académica e tecnicamente, o mais experiente
com uma visão global da problemática turística que nos advém
do exercício da própria profissão através do mundo,
pelo contacto constante com diferentes realidades e maneiras de trabalhar. Daí,
possuirmos termos de avaliação e de comparação com
o que se faz no nosso país.
Assim,
prevejo
para
a
nossa Associação um futuro interessante,
muito participativo e valioso na discussão da problemática do turismo
nacional. É importante aparecermos e exprimirmos as nossas opiniões;
devemos estar atentos ao desenrolar dos acontecimentos.
Gostaria
de lançar algumas questões que considero pertinentes:
a)
Para quando
a criação do Ministério do Turismo?
b)
Para quando
a extinção dessa tremenda aberração
que são as mais de 20 Regiões
de Turismo ?
c)
Para quando
uma política
de turismo preparada cuidadosamente
por gente que saiba o que
faz ?
d)
Para quando
a ocupação de cargos oficiais em Ministérios,
Autarquias, etc., por profissionais
de turismo ?
e)
Porque falhou
Foz Côa ? Porque falha Tróia ? Porque falham outras
coisas ? Porque razão se continua a plantar betão
ao longo da costa ?
f)
Será que se promove o turismo com festivais de sardinhas, de caldeiradas,
com muitas tasquinhas, com o ICEP, com as Regiões de Turismo, com os Municípios
e com as Juntas de Freguesia
? Que sabem eles disso ?
Questionarão alguns colegas : mas nós temos que nos preocupar com
isso tudo ? Penso que sim. É do turismo que vivemos e o turismo tem, hoje,
um peso fundamental na formação do PIB e é gerador de postos
de trabalho, directo e indirecto, que constituem riqueza para a Nação.
Termino
com duas
citações:
“
A profissão de guia intérprete tem ocupado uma posição
injusta no ranking das actividades profissionais. Ou é simplesmente desconhecida
ou considerada de somenos importância.”
Dr.
Carvalho Oliveira
e Dr.
José Cymbron, in “Ser Guia Intérprete
em Portugal”
“Somos o que somos, por opção”. Isabel Barreiros (21-2-1995)
Pela minha parte, deixo-vos a mensagem: Sejamos senhores do nosso destino. |